Miguel Guimarães - Bastonário da Ordem dos Médicos
Miguel Guimarães - Bastonário da Ordem dos Médicos

A pandemia de medo também tem de ser combatida

“Temos de libertar as pessoas do medo. Há doenças muito mais graves do que a Covid-19, que têm uma taxa de mortalidade muitíssimo mais elevada e que, se não forem tratadas, aumentam  a probabilidade de mortalidade e a morbilidade”.

 

A frase é do bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que se confessa preocupado com o afastamento dos doentes dos serviços de saúde.

O bastonário traça uma análise ao equilíbrio que é necessário entre a proteção perante um novo vírus e a continuação do tratamento de todas as outras patologias.

 

Os serviços de saúde sentem uma diminuição dos doentes que necessitavam de acompanhamento?

Há muita gente que, na sequência do combate à Covid-19 acabou por ficar “abandonada” ou por deixar de recorrer aos serviços de saúde. Creio que a morbilidade e a mortalidade de todas as doenças não Covid vai aumentar exponencialmente. As consequências que os doentes não Covid vão ter são muito preocupantes, assim como é preocupante a queda acentuadíssima do recurso ao serviço de urgência e da diminuição abrupta de diagnósticos de enfartes agudos do miocárdio, por exemplo.

 

Mas foi o medo que afastou as pessoas dos serviços de saúde?

Houve um exagero de comunicação na mensagem de medo que se passou às pessoas. Foi importante, por um lado, porque levou a uma eficácia na contenção e distanciamento social. Mas provavelmente não foi na dose certa. Ninguém soube calcular a dose adequada. E a mensagem divulgada massivamente teve um efeito também negativo.

Por um lado, teve o efeito positivo na contenção e contribuiu para grande parte do êxito relativo de Portugal no combate à infeção de Covid-19. Por outro lado, o medo foi exagerado.

 

Notou isso na sua prática clínica?

Sim, comecei a notar isso no meu hospital, o hospital de São João, que foi um dos principais a liderar o combate ao vírus. Um dos dias mais impactantes da minha vida nesta crise foi quando, ainda em março, entrei no hospital e não vi vivalma, quando pelas 08:00 costuma estar já cheio de gente. Parecia um hospital de guerra. Na sala de espera não havia ninguém, nem ninguém para as consultas.

Selecionei os doentes mais prioritários para os chamar para consultas. Selecionei e chamei 17 doentes. Na consulta seguinte, só três desses 17 apareceram. Os doentes não foram porque tinham medo. Eu selecionei os mais prioritários, que tinham doenças em progressão ou que tinham exames importantes para decidir a terapêutica. Mas os doentes não apareceram. Tentei avisar que a doença que têm é bastante pior do que a Covid-19, mas muitos não quiseram ir por receio, mesmo numa altura em que o hospital tinha já os circuitos muito definidos para doentes Covid e não Covid.

 

Que ilações tirou desse momento?

Nesse dia, percebi que o medo estava a ser prejudicial às pessoas. Tinha um efeito benéfico na contenção, mas devastador sobre os doentes não Covid. Comecei a tentar, ainda mais, ter uma intervenção diferente e a focar-me na mensagem de que o medo pode ser prejudicial. Mas infelizmente a mensagem dos  responsáveis pela autoridade nacional de saúde não tem conseguido chegar aos cidadãos.

A comunicação induziu o medo nas pessoas a uma grande velocidade, mas não estamos a ter o mesmo sucesso em voltar atrás.

 

Mas é necessário que as pessoas percebam que é possível estarem protegidas ao mesmo tempo que recorrem aos serviços de saúde. Concorda?

 

Sim, é preciso que a mensagem passe com equilíbrio. A infeção ainda não acabou e provavelmente vai continuar durante mais tempo.

Mas temos de conseguir dosear de forma adequada aquilo que é o respeito pelas normas da Direção-geral de Saúde (distanciamento, máscara e cuidados de higiene), mas ao mesmo tempo ir libertando as pessoas do medo.

Temos mesmo de libertar as pessoas do medo! Há doenças muito mais graves que a Covid-19, que têm uma taxa de mortalidade muitíssimo mais elevada e que, se não forem tratadas, aumentam ainda mais a morbilidade e a mortalidade.

 

“A saúde não pode ser vista como uma despesa, mas como um investimento nas pessoas e também na produtividade de um país”

  

Que lição devemos aprender com esta crise e com esta pandemia?

Esta crise veio demonstrar que todas as áreas de intervenção social, incluindo a economia, estão dependentes da saúde. A saúde não pode ser vista como uma despesa, mas como um investimento nas pessoas e também na produtividade de um país. Nesta crise, a saúde abalou a economia, a educação e até a justiça.

Espero que os países tenham aprendido que não se deve desinvestir na saúde. Creio que muitos estarão arrependidos de o terem feito.

 

De entre as várias aprendizagens que podemos retirar, que outras destacaria?

Creio que uma segunda lição desta pandemia é que nós dependemos muito dos cientistas e da investigação. Negar a importância, por exemplo, da indústria farmacêutica ou das carreiras de investigação na nossa sociedade é um erro tremendo.

Por outro lado, com isto devíamos aprender de uma vez por todas a lição do combate que é preciso fazer contra as falsas informações e contra a pseudociência. As falsas informações de saúde e a pseudociência são prejudiciais para todos, para as próprias pessoas, para a economia individual das famílias e também para os estados.

Proponho, aliás, a criação de um gabinete na dependência dos ministérios da Saúde e da Justiça para combater a divulgação das falsas informações na área da saúde. Um gabinete que envolvesse profissionais de saúde e autoridades judiciárias ao mais alto nível.