Preferências dos doentes relativamente à quimioterapia oral versus intravenosa para tratamento paliativo

Liu G, Franssen E, Fitch M, Warner E

Por que razão se realizou o estudo?

O objectivo do estudo foi investigar se os doentes preferiam ser tratados com quimioterapia oral ou com quimioterapia i.v. A forma como a quimioterapia é administrada, ou seja, se é administrada sob a forma de um comprimido (oral) ou através de uma injecção na veia (i.v.), designa-se por via de administração. É importante recordar que no estudo os doentes não estavam, de facto, a receber qualquer tipo de tratamento de quimioterapia. O estudo destinava-se a identificar qual o tipo de quimioterapia que as pessoas hipoteticamente prefeririam, tratou-se de uma situação imaginária.

Quem participou no estudo?

Todos os doentes convidados a participar no estudo tinham casos incuráveis de cancro.

O que implicou participar no estudo?

Aos doentes participantes no estudo fizeram-se perguntas, por telefone, a fim de conhecer a sua opinião. Todos os doentes contactados pelo telefone aceitaram ser incluídos no estudo.

O que se perguntou aos doentes?

As entrevistas telefónicas foram divididas em quarto partes, descritas em seguida.

Parte 1

Durante a primeira parte da entrevista telefónica, pedia-se ao doente que respondesse a perguntas pessoais, como a sua idade, sexo, estado civil, tipo de cancro que tinha e se já tinha ou não sido submetido a tratamento com quimioterapia intravenosa ou oral.

Parte 2

Perguntou-se ao doente se tinha preferência em fazer a quimioterapia por via oral ou por via intravenosa e qual a magnitude dessa preferência. Conseguiu-se este objectivo pedindo ao doente que imaginasse que, juntamente com o seu médico assistente, tinha concordado em fazer quimioterapia paliativa. A quimioterapia paliativa, embora não se destine a curar o cancro, pode diminuir a intensidade dos sintomas, melhorar a qualidade de vida do doente e, idealmente, prolongar a vida o mais possível. Foi pedido ao doente que considerasse que, independentemente da via de administração da quimioterapia (isto é, se esta era administrada por via oral ou intravenosa), a sua eficácia, a sua toxicidade, a frequência com que precisava de se deslocar ao hospital e a frequência com que o doente precisava de fazer análises de sangue, eram exactamente as mesmas para as duas vias de administração do tratamento. Foi dito também que embora nenhuma das formas de tratamento curasse o cancro, 80% dos doentes se sentiria melhor durante cerca de 10 meses, fosse qual fosse a sua opção de tratamento.

Perguntou-se depois ao doente se a sua opção terapêutica inicial se manteria no caso de saber que essa era menos eficaz do que a outra opção de tratamento.

Perguntou-se ainda ao doente se manteria a sua opção terapêutica inicial se está fosse eficaz durante um período de tempo provavelmente mais curto do que o da opção alternativa.

Parte 3

A terceira parte da entrevista envolveu perguntar ao doente as razões pelas quais tinha optado por um ou outro tratamento. Pediu-se depois que dissesse se concordava ou se discordava de uma série de afirmações, como por exemplo 'Incomoda-me a dor provocada pelo catéter intravenoso.

Parte 4

Finalmente, perguntou-se ao doente se achava que a escolha da forma como recebia a quimioterapia devia ficar inteiramente ao seu critério, ao critério do seu médico ou de ambos.

Quais foram os resultados do estudo?

O estudo permitiu saber que dos 103 doentes entrevistados, 92 preferia a quimioterapia por via oral. Apenas 10 dos 103 doentes afirmou preferir a quimioterapia por via intravenosa e um dos doentes não manifestou qualquer preferência. Não se observaram diferenças nas respostas, entre as pessoas já anteriormente tratadas por via intravenosa e as que não tinham sido anteriormente submetidas a qualquer tipo de quimioterapia. Do mesmo modo, a via preferida não foi influenciada pelo tipo de cancro que afectava o doente.

Dois terços das pessoas afirmaram que só fariam a quimioterapia por via oral se esta fosse tão eficaz como a quimioterapia intravenosa.

Dos doentes que afirmaram preferir a quimioterapia intravenosa, pelo menos metade afirmou que razões importantes para a sua escolha eram o facto de haver alguém a ter que se preocupar com a administração da quimioterapia e poder fazer cada ciclo de quimioterapia todo num dia. Quatro doentes afirmaram que se esqueciam frequentemente de tomar a medicação. Entre os doentes que preferiam a quimioterapia por via oral, as razões invocadas para a sua preferência foram a comodidade, a dor e os problemas em manter um catéter intravenoso, bem como ter controlo sobre o local de administração do tratamento. Outras razões invocadas para a sua preferência foram os problemas com os catéteres intravenosos e os problemas levantados pelas deslocações até aos centros de tratamento.

Relativamente à tomada de decisão final sobre o tratamento, 39% preferia deixá-la ao cuidado do seu médico, 23% preferia decidir em conjunto com o seu médico e 38% preferia que a decisão fosse tomada essencialmente por si próprio.

O que nos diz o estudo?

O estudo mostrou que 9 em 10 doentes preferem a quimioterapia por via oral. Esta clara preferência indica que existe uma forte procura de quimioterapia oral eficaz entre os doentes e que a quimioterapia oral poderia melhorar significativamente a sua qualidade de vida.

No entanto, os doentes continuam a valorizar a opinião do seu médico assistente, uma vez que 4 em 10 preferia que fosse este a escolher a via de administração do seu tratamento de quimioterapia.

O facto de os doentes não quererem fazer o tratamento de quimioterapia por via oral se este fosse menos eficaz do que a quimioterapia por via intravenosa, mostra a determinação dos doentes com casos incuráveis de cancro em receber o tratamento mais eficaz disponível, mesmo que isso implique uma diminuição na sua qualidade de vida.
Referência: J Clin Oncol. 1997 Jan;15(1):110-5.

Para conhecer outro estudo efectuado sobre esta temática clique aqui



 
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