Testemunho 1
“Quando estou muito triste ou deprimida tenho tendência para ficar quieta, não me apetece fazer nada, o que faz com que fique cada vez pior. Mas aprendi algo que faz desaparecer imediatamente essas tristezas: mantenho-me activa. Para isso, faço um plano das minhas actividades diárias. Pego numa folha de papel e divido-a em duas colunas. Na coluna da esquerda escrevo um plano de hora a hora e anoto aquilo que gostaria de fazer nesse dia. Nem sempre consigo fazer tudo o que planeio, mas o simples facto de fazer este plano faz-me sentir melhor. Para cada hora anoto de forma simples o que quero fazer: “ler um livro”; “ir ao supermercado”; “ir ao cabeleireiro” etc. Ao fim do dia, anoto na coluna da direita aquilo que realmente fiz. Além disso, para cada actividade que realizei, atribuo uma classificação (M para mestria e P para prazer). Utilizo a palavra mestria nos casos em que me senti pessoalmente realizada com a tarefa. A palavra prazer diz respeito aos sentimentos agradáveis associados à tarefa. Depois de escrever um M ou um P para cada actividade avalio numa escala de 0 a 5 o grau de prazer e o sentimento de realização. Por exemplo, ler um livro fez-me sentir realizada a um nível Bom, por isso coloquei um 4 a seguir ao M; e deu-me bastante prazer – por isso coloquei um 5 a seguir à letra P.
Porque é que esta estratégia me ajuda? Porque “corta” a minha tendência para andar demasiado preocupada e evitar fazer coisas. Assim, consigo fazer tarefas de que gosto, ocupo o meu dia e distraio-me dos pensamentos negativos e das preocupações. Faço este plano de actividades todos os dias, pelo menos durante uma semana.”
Comentário
Esta doente refere formas importantes de combater a depressão:
- Faz um plano de actividades para evitar a inactividade e para se distrair. Fazer coisas de que gostamos e que nos fazem sentir realizados é uma boa forma de contrariar a depressão.
Sugestão
- Evite a depressão. Mantenha-se activo/a. Fazer exercício físico, como andar ou passear, dançar, de acordo com as recomendações médicas, são actividades que muitas pessoas adoram e que as fazem sentir muito bem.
- É importante que se sinta activo/a: certas pessoas iniciam actividades que nunca tinham feito antes, como pintura, cantar num grupo coral, jardinagem, o que as leva a descobrir que ainda podem sentir muito prazer nas suas vidas.
Testemunho 2
“A melancolia, a tristeza profunda que sentimos pode ser contrariada.... Não há dúvida que são hábitos de avaliação das situações, da nossa vida, que nos levam a concluir que nada de importante e de valor se passou no nosso passado, que o presente é muito negativo e que não podemos esperar nada do futuro. Para contrariar esses hábitos, procuro fazer uma análise dos meus pensamentos, reflectir sobre a sua pertinência: Porque é que eu cheguei a estas conclusões? Será que este pensamento tem algo a ver com a realidade? Não estarei a exagerar as consequências? Esta reflexão é positiva porque afasta as minhas preocupações e pensamentos negativos. Por exemplo, no outro dia estava sozinha a lamentar-me, a achar que não tinha valor, que não fazia nada de jeito. Sentia-me muito triste e culpada e cada vez com menos vontade de fazer alguma coisa. Então, tentei confrontar os meus pensamentos negativos e pensei: “sentes-te em baixo porque não estás a fazer nada. Lembra-te que tens de fazer o plano de actividades. Não podes cair na inactividade. Quando começo a fazer coisas sinto-me logo melhor e com mais auto-estima.” Para facilitar este debate comigo própria faço um registo num bloco com duas colunas. Na coluna da esquerda coloco os pensamentos distorcidos ou negativos e na da direita confronto todos esses pensamentos. Por exemplo, no outro dia anotei na coluna da esquerda um pensamento distorcido - não tive cuidado comigo própria e se calhar adoeci por causa dos meus comportamentos, não há dúvida que mereço sentir-me culpada; na coluna da direita coloquei os pensamentos de confronto: ás vezes posso até ultrapassar certas regras, mas não sou perfeita e não preciso de o ser. E não é necessário sentir-me culpada porque isso não me leva a lado nenhum. Além disso não é possível saber se o cancro tem a ver com o meu estilo de vida.” Coloquei outro pensamento na coluna da esquerda - Se seguir à risca todos os tratamentos e conselhos médicos tenho de ter a garantia que vou ficar curada; na coluna da direita escrevi - Isso é ridículo. Ninguém me pode garantir que vou ficar curada apenas porque faço as coisas de forma correcta. O que posso garantir é que se seguir os conselhos médicos as hipóteses de ficar curada aumentam.
Comentário
Esta doente procura contrariar os seus hábitos de avaliação negativistas e, para isso, faz uma análise dos seus pensamentos: Porque é que cheguei a estas conclusões? Será que estes pensamentos têm algo a ver com a realidade? Não estarei a exagerar nas consequências? Este questionamento dos pensamentos faz com que se sinta melhor porque a distrai das preocupações e modifica os seus pensamentos negativos. Seguem-se excertos das anotações da doente:
| Pensamento distorcido |
Pensamentos de confronto |
| Não tive cuidado comigo própria e se calhar adoeci por causa dos meus comportamentos, não há dúvida que mereço sentir-me culpada |
Às vezes posso até ultrapassar certas regras, mas não sou perfeita e não preciso de o ser. E não é necessário sentir-me culpada porque isso não me leva a lado nenhum. Alem disso não é possível saber se o cancro tem a ver com o meu estilo de vida |
| Se seguir à risca os tratamentos e conselhos médicos tenho de ter a garantia que vou ficar curada |
Isso é ridículo. Ninguém me pode garantir que vou ficar curada só porque faço as coisas de forma correcta. O que posso garantir é que se seguir os conselhos médicos as hipóteses de ficar curada aumentam |
Sugestão
- Anote os seus pensamentos e tente questioná-los como se fossem de uma amiga que pretende ajudar. O que diria à sua amiga? Tente argumentar contra as razões dela para defender esses pensamentos. Promova a reflexão e a dúvida.
Testemunho 3
Quando me sinto pessimista e deprimido só vejo as coisas negativas, a minha mente fica cheia de imagens relacionadas com desgraças... que não vou ficar bem depois dos tratamentos, imagino-me a sofrer e então tento contrariar essas imagens criando outras mais positivas: imagino que estou a pescar no mar, que é umas das coisas que mais gosto de fazer, ou que estou sentado na biblioteca do meu bairro a ler um bom romance... enfim imagino as coisas de que mais gosto e isso faz-me sentir muito melhor.
Comentário
Este doente procura mudar intencionalmente a sua imaginação quando se sente mais em baixo. De facto, quando estamos tristes ou deprimidos imaginamos coisas e eventos negativos, é como se víssemos o mundo a preto e branco. Mas está na nossa mão mudarmos o conteúdo e as cores do filme.
Sugestões
- Imagine cenas agradáveis. Verá que é uma óptima forma de combater o seu pessimismo e desespero.
- Seja mais activo/a socialmente. Tente sair mais e conviver com outras pessoas.
- Partilhe os seus sentimentos e emoções com as pessoas mais chegadas, familiares ou amigos.
- Se gosta de escrever faça um registo diário ou semanal da sua experiência da doença. Se não tem o hábito de escrever, experimente. Estudos científicos mostram que quando escrevemos sobre as nossas preocupações e dificuldades, o nosso sofrimento, sentimo-nos melhor. Escreva e não se importe se está bem ou mal escrito, Escreva sobre o que “lhe vai na alma”, procure colocar em palavras a sua experiência e verá que contribui bastante para o seu bem-estar.
- Alguns doentes procuram ajuda em grupos de apoio, ou seja, grupos de pessoas que sofrem da mesma doença e com quem podem partilhar experiências pessoais e projectos futuros. A participação neste grupos pode ajudá-lo/a a perceber que não está só, encontrar um novo sentido para a vida, saber mais sobre a sua doença, ter oportunidade para falar das suas emoções, ajudar a resolver problemas práticos do seu dia-a-dia. A participação num grupo de pessoas que “estão a passar pelo mesmo” pode ser mesmo muito útil. Estudos indicam que a participação dos doentes nestes grupos melhora o seu bem-estar e a qualidade de vida. Solicite à sua equipa médica que lhe indique os grupos de apoio existentes para o seu tipo de cancro.