Doenças Metabólicas
A aterosclerose é uma doença das artérias musculares de tamanho grande e médio, que pode levar à redução ou obstrução do fluxo sanguíneo. Caracteriza-se por disfunção do endotélio, inflamação vascular e acumulação de lípidos, células musculares lisas e tecido conjuntivo. As consequências da aterosclerose são a doença coronária (DC), doença cerebrovascular (AVC, trombose), doença vascular periférica e aneurisma da aorta abdominal.Fundamentos
Epidemiologia
Por se tratar de uma situação assintomática, é difícil determinar a verdadeira incidência da aterosclerose. A incidência das manifestações clínicas da aterosclerose não é a mesma em todas as regiões do mundo, uma vez que é mais frequente no ocidente, especialmente na Escandinávia e no Reino Unido, mas muito mais baixa na Ásia oriental e no continente africano. A rápida ocidentalização e urbanização, a mudança de dieta e outros factores ambientais têm contribuido para um aumento da incidência das doenças cardiovasculares.
Outros factores:
De acordo com a OMS (2002) as doenças do coração e as tromboses, no seu conjunto, matam mais de 17 milhões de pessoas em todo o mundo por ano.
A aterosclerose é mais habitual nos homens do que nas mulheres. Este efeito deixa de existir nas mulheres depois da menopausa.
A maior parte dos casos de doença vascular aterosclerótica torna-se clinicamente visível em pacientes desde os 40 até aos 70 anos de idade.
Causas e Factores de Risco
Patogénese
O mecanismo da aterogénese não está totalmente compreendido. A “resposta a um dano” é a teoria com maior aceitação. Um dano no endotélio causa uma inflamação vascular e surge a resposta fibro-proliferativa. As causas prováveis de lesões no endotélio incluem:
• Colesterol LDL de baixa densidade oxidado
• Agentes infecciosos (Chlamydia pneumoniae)
• Toxinas, incluindo os sub-produtos do tabaco
• Hiperglicemia
• Hiperhomocisteinemia
Os monocitos em circulação infiltram-se na parede íntima dos vasos e estes macrófagos actuam como células varredoras (scavenger). Estas captam colesterol LDL e formam as foam cells características da aterosclerose inicial. Estes macrófagos activados produzem inúmeros factores que são nocivos para o endotélio.
A acumulação de lípidos, cálcio e resíduos celulares na íntima resultam na formação de placas, remodelação vascular, obstrução do lúmen, anomalias do fluxo sanguíneo e diminuição do fornecimento de oxigénio aos órgãos-alvo.
Factores de risco cardiovascular
Os factores de risco cardiovascular predispõem o indivíduo para DC. Três quartos dos casos de doenças do coração resultam de riscos conhecidos modificáveis ou não modificáveis:
Principais factores de risco DC
Modificáveis:
Pelo estilo de vida
• Fumar
• Obesidade
• Falta de exercício
• Dieta
Pela farmacologia e/ou estilo de vida
• Tensão arterial alta
• Colesterol LDL elevado
• Colesterol HDL baixo
• Triglicéridos elevados
• Factores trombogénicos
• Diabetes / Resistência à insulina
Não Modificáveis
• Idade
• Sexo masculino
• Historial familiar de DC
• Historial pessoal de DC
• Baixo peso à nascença
• Elevação da proteína c-reactiva de alta sensibilidade (hs-CRP)
• Níveis elevados de homocisteina
• Baixos níveis séricos de folatos
Como avaliar o risco cardiovascular
Os médicos de família deveriam ter por objectivo e sempre que possível, saber o nível de risco de todos os seus pacientes. A estimativa do risco tem em conta os efeitos individuais e multiplicativos dos principais factores de risco, tais como o sexo, o tabagismo, idade, tensão arterial, colesterol total (ou rácio colesterol total - colesterol HDL ou colesterol LDL) e diabetes.
Para fazer a estimativa do risco coronário dos seus pacientes, o médico pode utilizar:
• Tabelas de risco coronário
• Programas informáticos de cálculo do risco coronário como o PROCAM Risk Calculator ou o Framingham Risk Calculator.
Diagnóstico
• verificar os factores de risco do paciente para a aterosclerose
• instituir medidas de prevenção adequadas para reduzir a probabilidade da sua manifestação clínica
• controlar e monitorizar a terapêutica anti-aterosclerose
Fundamento clínico
A aterosclerose tem a característica de ser silenciosa até surgir a estenose crítica, a trombose como resultado da ruptura de placas, o aneurisma ou a embolia. Muitos pacientes com a doença em estado anatomicamente avançado podem não ter sintomas, nem sentir quaisquer impedimentos funcionais. Apesar de ser uma doença sistémica, a aterosclerose manifesta-se de forma focalizada e afecta diferentes sistemas de órgãos:
• Na doença coronária manifesta-se principalmente como angina de peito ou enfarte do miocárdio
• Na doença cerebrovascular, o AVC (acidente vascular cerebral), o déficite neurológico isquémico reversível e o acidente isquémico transitório caracterizam-se por um súbito início de déficite neurológico focalizado
• Na doença vascular periférica manifesta-se habitualmente por claudicação intermitente
• Na angina mesentérica caracteriza-se por dor epigástrica ou periumbilical pós-prandial
Nota: A diminuição do fluxo sanguíneo ocorre quando mais de 50 a 70 porcento do diâmetro do lúmen está obstruído pela placa fibrosa. A doença periférica arterial constitui um marcador de aterosclerose sistémica.
Exame Físico
• Aparência geral (cianose, palidez)
• Exame do coração e pulmões
• Exame neurológico (Déficit focal?) • Exame cardiovascular - sentir o pulso e auscultação (decréscimo ou diminuição do pulso, sopros arteriais), tensão arterial
• Exame do abdómen (massa abdominal)
• Altura , peso, índice de massa corporal
• Sintomas de hipercolesterolemia primária • Exame fundoscópico
Procedimentos de diagnóstico
Suspeita-se de aterosclerose com base em factores de risco e nos seus sintomas e sinais.
Factores de Risco Metabólico
• Colesterol total
• Colesterol HDL
• Colesterol LDL
• Triglicéridos
Metabolismo da glucose
• Glucose
HbA1c (nos diabéticos)
1. Conhecimento básico de como realizar um teste do índice tornozelo - braquial
2. Conhecimentos básicos da anatomia arterial
3. Ultra-som Doppler de onda contínua portátil e gel acústico
4. Esfigmomanómetro
O índice tornozelo – braquial compara a tensão arterial obtida com o Doppler manual no dorsalis pedis ou na artéria tibial posterior (a que for mais elevada) com a tensão arterial na mais elevada das duas tensões braquiais.
Em geral o índice tornozelo - braquial ≥ 0,90 é considerado normal; 0,40 a 0,90 reflecte um PAD baixo a moderado e, ≤ 0,40 sugere a existência de doença arterial periférica grave.
Diagnóstico de manifestações especificas
A obstrução por aterosclerose é normalmente confirmada por arteriografia ou ultrasonografia Doppler. Os procedimentos de diagnóstico podem incluir:
• DC: electrocardiograma em repouso, raio-X ao tórax, prova de esforço, ecocardiografia, angiografia coronária
• Doença cerebrovascular: Doppler ou ultrasonografia dupla das arterias carótidas.
• Doença arterial periférica: índice tornozelo - braquial, ultrasonografia arterial dupla, teste de exercício gradual em tapete.
Nota: Deve prestar-se atenção às causas subjacentes de aterosclerose na tentativa de desacelerar este processo e de estabilizar as placas existentes. Por exemplo, num paciente com claudicação intermitente tem também um peso significativo das placas ateroscleróticas nos vasos coronários e cerebrais. Ao avaliar o risco pré-operatório neste tipo de pacientes, deve dar-se atenção a uma estratificação cuidada do risco e ao esforço médico de intervenção para reduzir esse mesmo risco.
Prevenção
A forma mais eficaz de prevenir as complicações vasculares da aterosclerose e a trombose arterial associada, passa por evitar a aterosclerose em si mesma. Uma vez que existem medidas efectivas para o controlo dos factores de risco metabólico, torna-se de extrema importância identificar as pessoas em risco.
Com que periodicidade devem ser avaliados os factores de risco na prevenção primária? A avaliação de factores de risco nos adultos deveria começar aos 20 anos. Também se devem fazer diagnósticos de familiars próximos de pacientes com DC prematura e de pacientes com suspeita de dislipidemias familiares.
Frequência da avaliação:
• Em cada visita (pelo menos de 2 em 2 anos): tensão arterial, índice de massa corporal (IMC), perímetro da cintura, pulso
• Em todas as avaliações de rotina: tabagismo, dieta, consumo de álcool e actividade física
• Regularmente: perfil de lípidos em jejum, história familiar de DC
Objectivos ideais para a prevenção de DC na população em geral
• Dieta saudável
• Actividade física regular
• Evitar todas as formas de tabaco
• Colesterol total < 190 mg/dl (< 5.0 mmol/l)
• Tensão arterial < 130/80 mmHg
• IMC < 25 kg/m2
Nota: A avaliação e controlo dos factores de risco são cruciais para os pacientes com diabetes mellitus, uma vez que esta duplica o risco de DC (a HbA1C deveria ser < 7 %).
Objectivos de prevenção para os outros lípidos:
Colesterol LDL < 115 mg/dl (European Task Force, 1998) ou < 100 mg/dl em pessoas com risco elevado ou em pessoas com diabetes (American Heart Association, 2002)
Colesterol HDL > 40 mg/dl (> 1.04 mmol/l)
Triglicéridos < 150 mg/dl
Recentemente a hs-CRP foi identificado como marcador de inflamação e risco cardiovascular (risco baixo: < 1.0 mg/dl; risco médio: 1.0 - 3.0 mg/dl; risco elevado: > 3.0 mg/dl). No entanto, existem poucas provas que apoiem uma recomendação para alargar o rastreio de hs-CRP como medida de saúde pública. Se for identificado um nível > 10 mg/l procure uma fonte óbvia de infecção ou de inflamação.
Monitorização
O tratamento de pacientes com a tensão arterial elevada reduz os AVC’s e a mortalidade total, mas o seu efeito na redução das doenças coronárias não é tão visível.
O tratamento da hipertensão através de dieta adequada e de fármacos está associado a uma redução de risco de:
• 40% nas tromboses
• 8% nos enfartes do miocárdio
• 10% na mortalidade cardiovascular
Controlo da diabetes
Tabagismo
A incidência de DC em pessoas que deixaram de fumar recentemente é semelhante à de pessoas que não fumaram nos últimos dois anos. Parar de fumar também diminui a mortalidade em pacientes com doença arterial periférica, depois de cirurgia de bypass coronário e também em pacientes após enfarte do miocárdio.
Ácido acetilsalicílico
Embora os estudos tenham provado a eficácia do ácido acetilsalicílico na prevenção secundária do enfarte do miocárdio e da trombose, os benefícios do ácido acetilsalicílico na prevenção e tratamento da aterosclerose são menos claros. Uma pequena dose de ácido acetilsalicílico (pelo menos 75 mg por dia) recomenda-se para todos os pacientes com doença coronária.
Existem cada vez mais evidências de que o ácido acetilsalicílico também diminui a inflamação associada à aterosclerose e estabiliza a placa aterosclerótica.